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Vou ficando

Posted by Bruno Imbrizi . January 11th, 2010

Quando leio algo que eu escrevi e não publiquei, dou graças por ter mantido anônimo e arrasto para a lixeira. Hoje cliquei nesse ícone estacionado há três meses no desktop e até que não achei tão ruim. Se fosse hoje, provavelmente não escreveria mais sobre isso. Outra época, outras intenções. Mas faz parte do processo, é um registro legal do pensamento e vai para o ar assim mesmo.

 

——– escrito em 4 de outubro de 2009

Ainda não consegui decidir se São Paulo me agrada, ou se me irrita. Provavelmente as duas coisas, dependendo da hora do dia. Meio termo eu sei que não tem.

Tenho muito para escrever sobre São Paulo, mas antes sinto que tenho que despejar um pouco mais de explicação e um pouco mais de irritação.

O que mais me irrita é o barulho, como eu já comentei no post anterior. Eu gosto de cidade grande. Acho que morar no campo deve ser um tédio infinito. Morar longe também é um saco, dá uma preguiça enorme ver tanta gente passando horas e mais horas todo santo dia no transporte coletivo. Não quero ir até lá, eu quero já estar lá. E estou. Moro a poucos metros da Avenida Paulista e a 15 minutos do trabalho. A pé, claro. Minha localização é excelente. Meu azar foi ter um vizinho infernal, morar neste andar e ter o quarto virado para este lado.

Penso em me mudar todo dia, mas aí vem outra coisa que me irrita (e não só em São Paulo): encontrar um imóvel. É incrível como algo tão essencial possa ser tão difícil aqui no Brasil. Antes mesmo de saber se seria contratado para trabalhar em São Paulo já comecei a procurar um lugar para morar. Eu tinha duas exigências: tinha que ser perto do trabalho e tinha que ser mobiliado. Não precisava ser grande, nem novo, nem bonito, nem ser só pra mim, eu dividiria o apê sem problemas. Logo de cara eu aprendi que imóvel mobiliado por aqui é sinônimo de flat e eu não achei um flat na região que custasse menos de R$ 1.800 por mês. Como meu pai não é dono de bingo, tive que partir para a alternativa de dividir um lugar com alguém.

Em Auckland foi fácil achar um flatmate, visitei 3 quartos e em questão de dias já estava de mudança. Em São Paulo deve exigir um pouco mais de esforço – pensei – mas a cidade é grande e com certeza tem muita gente na mesma situação que eu, então vou acabar encontrando. Ledo e Ivo engano. Perdi a conta de quantos anúncios eu li e quantas mensagens eu enviei. Chuto entre 40 e 50. Das 4 ou 5 respostas que recebi, apenas uma resultou numa visita de verdade ao quarto – que era caro e muito ruim.

Morar onde, então? Foi numa dessas situações cara-de-pau em que eu soube que três caras da empresa para onde eu estava vindo trabalhar tinham uma vaga no apê deles. Uma dependência de empregada, pequena o suficiente para eu não conseguir abrir os braços dentro dela. Barato e bem localizado, pouco me importa o aperto. Além disso, meus flatmates são gente fina, a gente racha as contas da casa em 4 e temos um XBox na sala :-) Achei que tinha dado sorte. Até passar a primeira noite aqui e ser acordado às seis e pouco da manhã você já sabe como. Naquela manhã e em todas as outras desde então eu levanto querendo mandar tudo a puta que o pariu e sair de perto desse ruído o quanto antes. Aí vem a razão e eu percebo que, a menos que eu dê sorte ou tope gastar meu salário inteiro no aluguel, só me resta aguentar. E eu vou ficando.

Banheiro, Sala e Cozinha

Posted by Bruno Imbrizi . May 3rd, 2009

Moro com minha namorada em um flat. Nele há duas portas: a de entrada e a do banheiro, o resto é tudo uma peça só. Não é possível dar mais que dez passos atravessando a cozinhasalaquarto. A vantagem é que já veio mobilhado. Mas é pequeno para duas pessoas e nós começamos a pesquisar outros apartamentos.

Para quem acabou de chegar de Auckland, procurar lugar para morar em Curitiba é uma tristeza. De saída demos de cara com os sites labirínticos das imobiliárias – meu ex-professor de Design da Informação poderia usá-los de exemplo de como não fazer um site. Depois de driblar os obstáculos e chegar finalmente à página do imóvel, descobrimos que minha ex-professora de Português também tem um case nas mãos. Vamos a um exemplo:

Piso TACOS, Farmácia, Aquecimento Elétrico, P.Social Bom, Pintura Nova, Elevador, Calçada, Supermercado, Interfone, Portaria, Pavimentação Asfalto, Estado Bom, Colégio, T. Construção Alvenaria, Teto LAJE, BWC Social 1, Área de Serviço 1, Cozinha 1, Garagem 1, Sala 1, GaragemDOIS QUARTOS, SALA, BANHEIRO, COZINHA, AREA DE SERVIÇO E GARAGEM. COZINHA PIA COM ARMARIO E QUARTOS COM ARMARIOS. IPTU DA GARAGEM 3 PARCELAS DE R$ 10,50 OBS: GARAGEM É N. 427 UNIDADE 16.352.

Precisava ser tão confuso? Eu fico imaginando: o sujeito é corretor de imóveis, trabalha com isso, vive disso, custa ele perder dois minutos organizando as informações na hora de anunciar o imóvel? “Piso TACOS, Farmácia, Aquecimento Elétrico…” como assim? “Calçada, Supermercado, Interfone…” hã? E qual é a da caixa-alta nesses anúncios? E desde quando acento é facultativo? Alguém me explica por favor o que é “P.Social Bom” e “T. Construção Alvenaria”?

Passada a fase de interpretação, vem o prêmio: as fotos do imóvel. Isso, claro, quando o anúncio tem foto, afinal por que você iria querer ver imagens do imóvel que está pesquisando, não é mesmo?
- Opa, este aqui tem três fotos, vamos lá. Uma da fachada. Outra da fachada. Mais uma da fachada.
- Próximo.
- Este aqui tem mais. Pulando as quatro primeiras da fachada, ah, agora sim! Mas espera aí, isso aqui é a parede ou é um armário? Será que tem pia na cozinha? Não, sério, para que que serve esta foto do chão? Que a parede é branca eu já sei e isso ali no canto é uma janela? Ha! E não tem nenhuma da cozinha!
- Próximo.

Filtrados os imóveis pela internet, chegou a hora de ir na imobiliária e pedir a chave de alguns apartamentos para visitar. Um deles nos pareceu bem interessante, não era muito grande, mas estava bem cuidado e tinha grande potencial. O valor do aluguel era o mesmo do nosso flat, só que teríamos que providenciar toda a mobilha. Então, hora de pesquisar móveis e eletromésticos. Não é uma tarefa assim tão chata. Foi divertido passear pelas lojas de móveis usados. Descobrimos como pode ser abissal a diferença entre um sofá de uma loja popular e de uma loja que se pretende chique. No final das contas, comprar os ítens necessários para poder morar no novo apê sem dormir no azulejo ou almoçar sentado que nem índio, gastaríamos em torno de 5 mil reais. Não, não estávamos comprando uma geladeira da GE nem uma TV de 50 polegadas, era só o básico.

- Ei, mas o básico a gente já tem aqui no flat, uai.
- É mesmo. Vamos ficar, então?

Ficamos.

Em Auckland, a imensa maioria dos imóveis para alugar já vêm mobilhados. Não apenas cama, mesa e armários, vêm com fogão, geladeira, lavadora de roupa, secadora, TV, DVD, microondas e muitas vezes até com lavadora de louça. Entrar e sair de um imóvel é fácil e rápido. Encontrar um imóvel também é muito simples, sites como o TradeMe e T&E (que funcionam como o MercadoLivre no Brasil) têm um alto giro de anúncios de flatmates, aluguéis e vendas e são geralmente recheados de fotos e informações legíveis.

Essa é mais uma diferença cultural que eu acho que poderíamos copiar e adaptar à nossa realidade.