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Enquanto ninguém está olhando

Posted by Bruno Imbrizi . June 25th, 2009

Três meses depois de aterisar no Brasil, começo com uma citação fora de contexto:

“Part of being in a community is social control, especially if there are resources that are free for grabs. Whilst the majority of people have enough responsibility and moral values that they would not take more than their share even if nobody is looking, some individuals need to be made aware that they would not get away with it. So even though it is ugly, the occasional lynch mob makes sure that people will continue to share their labour and knowledge for free.”

E uma tradução mais que livre:

“Participar de uma comunidade é, em parte, fazer um controle social, especialmente se há recursos que são de todos. Enquanto a maioria das pessoas tem responsabilidade e valores morais suficientes para não abusar mesmo que ninguém esteja olhando, alguns indivíduos precisam ser avisados de que não vão se safar se o fizerem. Então, mesmo que seja feia, a ocasional “multidão do linchamento” garante que a comunidade continue a compartilhar seu trabalho e conhecimento de graça.”

As frases foram escritas por Mario Klingermann, um dos deuses do Flash, em resposta a um post no blog de Keith Peters, outro deus do Flash. Apesar de o contexto original não ter muito a ver com o objetivo deste post, acho no mínimo honesto abrir um parêntesis e explicar de onde elas vieram.

Um dos motivos de eu adorar o Flash é a comunidade que o envolve. Tem muita gente boa desenvolvendo e compartilhando. O sujeito mostra um negócio avançadíssimo e dá o código-fonte logo abaixo. É como pedir um prato delicioso num restaurante e já levar a receita de lambuja. E o que o restaurante/desenvolvedor ganha com isso? Diretamente, nada. Mas quem leu a receita/código pode melhorá-la mais um pouco e continuar passando para frente. Assim o negócio de restaurantes/Flash ganha como um todo, com receitas/códigos em constante evolução. E indiretamente, o cozinheiro/desenvolvedor que não manteve em segredo seu conhecimento ganha fama, respeito e seguidores – pois de onde saiu uma boa receita/código, podem sair outras. (Minha comparação pode ter sido idiota, mas acredite que o esquema funciona bem pelo menos na comunidade Flash). E tem alguns caras que já produziram tanta coisa boa que ganharam um status de rockstars. Tem quem os chame de Flash Gods.

Pois ontem, graças ao Twitter, alguns dos deuses do Flash se envolveram num episódio polêmico. Um sujeito, Chris Hughes, que até então eu desconhecia, subiu no palco do TED – uma respeitada vitrine de tecnologia e conhecimento – para mostrar uma peça em Flash que “ele fez”. Ele só “esqueceu” de comentar, nos rápidos dois minutos que ficou no palco, que a apresentação dele era inteiramente baseada no trabalho gratuito de outras pessoas (só para registrar, tratava-se das bibliotecas Papervision3D e FLARToolkit). Após a divulgação do vídeo da apresentação do cara, começou uma indignada reação no Twitter que se espalhou mais rápido que arroz em volta de prato de criança. Os difamadores de Hughes não demoraram a ganhar o apelido de lynch mob (multidão do linchamento).

O cara estava nervoso e esqueceu? Ou o cara quis tapear os incautos e levar vantagem? A questão ainda é quente e enquanto escrevo estão chegando novos tweets e posts a respeito. Já o meu post não é para exprimir meu julgamento sobre esse assunto. Espero que ainda não tenha perdido o(a) leitor(a) agora que vou puxar o fio da meada. Em três meses da volta para o Brasil, a citação lá no início trouxe para perto algo que já estava ficando bem pequeneninho no retrovisor. Que o maior abismo entre a Nova Zelândia e o Brasil não é econômico ou político/partidário. A diferença está na noção de comunidade. Como explicar para um brasileiro (eu incluso) um povo em que “a maioria das pessoas tem responsabilidade e valores morais suficientes para não abusar mesmo que ninguém esteja olhando”? E onde “alguns indivíduos” de fato são ”avisados de que não vão se safar se o fizerem”? Posso estar redondamente enganado, mas foi assim que eu vi e vivi a Nova Zelândia.

O que me entristece é que, só para ficar no exemplo mais recente, em meio aos atos secretos não são as sindicâncias parlamentares que vão melhorar o Brasil. Enquanto não houver uma evolução na noção de comunidade, vai continuar no nosso sangue essa urgência de se dar bem, esse ímpeto de meter a mão na cumbuca quando ninguém está olhando e esse receio de denunciar algo errado por medo de retaliação pessoal. Pouca gente fica em pé quando a maioria está interessada em passar rasteira. Enfatizo aqui o termo maioria. Generalizar é sempre perigoso, mas opino sobre o que vejo (seja na esquina ou seja no jornal) assim como todo mundo.

Voltei da Nova Zelândia com um novo ponto de vista, uma nova energia para ser melhor e fazer melhor. Três meses depois me sinto frustrado por me ver de novo afundado “no esquema”. Talvez seja também por isso que eu dedique boa parte do meu dia ao Flash, dá mais gosto de viver nessa comunidade. E esse post (além do caráter auto-terapêutico) tem a função de levantar a questão e abrir a discussão. Pois de nada adianta começar a pensar numa solução para o problema se o cidadão levanta a mão e pergunta: “Que problema?”

Guia para reconhecer brasileiro no exterior

Posted by Bruno Imbrizi . October 18th, 2008

Brasileiro é um bicho misto. Se o cara não tiver cara de gringo, já tem potencial pra ser brasileiro. Na verdade a gente é tão misto que até brasileiro com cara de gringo tem, mas aí é sacanagem. É igual brasileiro de olho puxado, aqui tem tanto asiático que passa camuflado fácil fácil. Tentar reconhecer brasileiro andando na rua virou meu esporte. E eu estou ficando craque.

Tem coisas que não dá pra descrever. Vai na base da intuição. Às vezes eu não tenho como ter certeza, fica só na desconfiança, já outras fica evidente. Hoje vi uns caras passando pensei “esses são brasileiros”. Não deu dois segundos escutei um “muito loco, véio”. Não sei explicar, eu simplesmente sabia.

Agora, tem coisas que dá pra descrever sim. É fácil. É só bater o olho. São indicadores de brasileirice. Confira abaixo no tupinicômetro:

Quicksilver & Billabong
Se o cara ou a menina estão usando uma dessas marcas, já levanto a orelha. É impressionante, brasileiro chega aqui e corre pra comprar Quicksilver ou Billabong em ponta de estoque.

Tatoo Japonesa
- Tô pensando em fazer uma tatoo.
- Ah é? E o que pensa em tatuar?
- Ah, não sei. Acho que o meu nome em japonês…
Mais brasileiro que isso só arroz com feijão.

Nike Shox
Kiwi não usa. Chinês não usa. Nem indiano, coreano, japonês, sul-africano. Sinceramente, acho que Nike Shox só fez sucesso no Brasil.

Brinco comprido
Mulher brasileira em geral é mais fácil de reconhecer que homem. Um dos fatores é o brinco comprido. As brasileiras gostam e as indianas também. Só que indiano é bicho único no mundo, é muito fácil de reconhecer. Então se a moça estiver com brinco comprido e não tiver cara de indiana, 90% de chance de ser brazuca.

Bota plataforma
Eu ponho minha mão no fogo. Se estiver usando bota com salto plataforma é brasileira. É batata. Não tem erro.

Experimentando

Posted by Bruno Imbrizi . May 25th, 2008

Ontem fui experimentar o tal Brazilian Menu - Real Large Dish (do post anterior) e sabe o que eu descobri? Que o dono do restaurante é iraniano e nunca esteve no Brasil. O restaurante fica numa praça de alimentação junto com outros cinco ou seis de comida oriental. Pedi o prato padrão. Enquanto eu esperava vi que o pessoal da mesa do lado tinha pedido a mesma coisa e fiquei assistindo. O iraniano coloca maionese em cima da salada, catchup aos montes em cima da batata e molho barbecue aos montes em cima do bife. Para quê? - você me pergunta. Sim, eu me perguntei o mesmo e pedi tudo sem molho e - agora te respondo - constatei que é tudo meio sem sal, meio sem gosto. Os molhos que eles colocam não é para disfarçar o sabor, é para ter algum sabor. De qualquer forma, depois das porcarias que andei comendo por aqui, até que foi bem saudável comer uma comidinha com pouco sal.

Depois, mais à noite, fomos experimentar um outro sabor brazuca: fomos até a tal Brazilian House Party. O lugar estava meio vazio e ficamos conversando com os seguranças gente boa na porta. Enquanto estávamos por ali, a música era aquela batida eletrônica leve misturada com bossa nova, bem legal. Entramos e pedimos uma caipirinha - que aliás estava bem fiel às nossas, exceto pela quantidade de gelo. Não deu dez minutos, a música mudou. Dali em diante foi boladona, atoladinha e outros lixos que nem no Brasil eu tinha ouvido, mas que por ali todas brasileiras que estavam no bar cantavam junto e faziam coreografia. Quando acabou o funk começou o pagode. Soou como um convite para nos retirarmos do lugar.

O Brasil tem comida boa, barata e fácil de encontrar. O Brasil tem música criativa e de qualidade para ninguém botar defeito. Eu sei que vou sentir falta do churrasco e do barzinho com voz e violão. E me pergunto: o que será que os kiwis e os orientais de Auckland achariam de uma churrascaria brasileira e de uma balada MPB? Talvez eles sentissem falta do molho barbecue e de ver as meninas boladonas descendo até o chão. Talvez não, talvez fosse um sucesso. Alguém aí está afim de vir pra cá e arriscar? Eu ajudo a pôr lenha na fogueira, ou melhor, a levantar a grelha e pôr o carvão.

Arroz sem feijão

Posted by Bruno Imbrizi . May 22nd, 2008

Uma das coisas que eu mais ouvi antes de vir pra cá era que a Nova Zelândia estava cheia de brasieliros, mas até agora os encontros com os conterrâneos foram bem raros. Outro dia vi um chinês com a camisa da seleção. Atrás tinha o número 2 e no lugar do nome do jogador estava escrito “Best Man”. Vai entender… Aliás, aqui vale mencionar uma de Dubai: lá conversamos com um filipino que estava usando uma camiseta onde se lia “Santa Catarina - Hot Samba Beach” ou algo muito parecido. Santa Catarina hot samba beach? De onde esses caras tiram essas coisas???

Voltando a Auckland, ou aos pedacinhos de Brasil em Auckland:

  • No nosso albergue tinha um anúncio de um carro sendo vendido por $2000 e o e-mail para contato era com.br.
  • No cartaz de uma balada que vai rolar semana que vem num barzinho aqui, um dos DJs é um tal Bobby Brazuka.
  • Descendo a Queen St, em meio a dezenas de restaurantes coreanos, sushis e kebabs é possível encontrar uma placa onde (mal) se lê BIFE+SALADA+BATATA+ARROZ+MACARRAO. Eu me pergunto: Cadê o feijão?
  • No escritório de Jobs NZ tem uma brasileira designer procurando emprego. Concorrência a vista.

Algumas bocas abrem e os dentes aparecem quando nós dizemos “we’re from Brazil”, mas isso nem sempre acontece. Quando acontece é bem legal. Uma coreana que estava fazendo fund raising nos parou na rua outro dia. Ela pediu para a gente ensinar como dizer “oi” e “como é seu nome”. Foi bacana.

Agora brasileiro brasieliro mesmo, daqueles de carne, osso e que não desistem nunca, esses foram poucos. Ouvi um ou outro português na rua, mas nada que desse para puxar papo. Uns caras estavam batendo foto e fazendo zona no alto do Mount Eden. A gente deu oi e ficou só por isso.

O encontro mais marcante com outros humanos tupiniquins aconteceu logo que chegamos. Estávamos andando e conversando na Grafton Bridge e um cara e uma menina passaram por nós falando português. Eu reparei e comentei com o Walker, mas eles andavam rápido e logo se distanciaram. Eles devem ter ouvido a nossa conversa em português também. Na esquina, os sinais para pedestres demoram bastante e nós os alcançamos. Só estávamos nós quatro naquela esquina, os quatro brasileiros numa coincidência fugaz do outro lado do mundo. O que eu fiz? Eu disse “olá”. A menina girou a cabeça e mostrou três dentes. Ainda estou em dúvida entre um sorriso e um rosnado. O cara também virou a cabeça… só que para o outro lado. O sinal ainda ficou mais uns 30 segundos fechado para pedestres e nós ali, com aquela cara de tacho.

Veja, ninguém tem a obrigação de ser meu amigo, mas visto que eu sou um brasileiro e você também é e nós coincidentemente nos encontramos parados no sinaleiro a milhares de quilômetros do nosso país, não te dá vontade de pelo menos perguntar “será que chove?”

Eu e o Walker rimos sobre voltar no tempo e refazer a cena do sinaleiro de várias formas. Na hora ficamos parados e não falamos mais nada, tentando entender o porquê do gelo.

Essa história de povo caloroso é lenda. Aqui todo kiwi trata a gente super bem e quase sempre rola bater um papinho. E quanto aos brasileiros do país hot samba beach, pelo menos até agora, os daqui não me dão saudade de casa.

 

 

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Editado Sexta, 23 de maio
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Hoje eu estava andando sozinho na rua e ouvi uns caras falando português. Não resisiti, tive que parar e puxar papo. Não demorei pra mencionar o episódio do sinaleiro. Eles deram risada e me cumprimentaram na hora, se apresentando e perguntando meu nome. Trocamos uma idéia rápida e logo passaram mais três brasileiros, um dos que estavam falando comigo chamou:
- E aí Fabio?
- E aí. Cês vão na festa?
Aí chegou uma menina distribuindo flyers de uma festa brasileira que vai rolar hoje à noite. Os caras foram bem gente boa e eu peguei o celular de um deles. Viva o Brasil!