14 x 5

Posted by Bruno Imbrizi . October 14th, 2008

Fiquei sabendo que os bancários entraram em greve no Brasil e me ocorreu fazer uma pesquisa. Quantas greves ocorreram no Brasil desde que eu vim pra cá? E quantas na Nova Zelândia?

Fiz a busca pela palavra “greve” no UOL e fui anotando. Quando o UOL parou de me mostrar ali pelo mês de agosto, continuei no G1. Para a pesquisa kiwi, usei o NZ Herald. E o placar foi Brasil 14 x 5 Nova Zelândia.

Agora é só levantar a placa EU JÁ SABIA, certo? Mas péra aí? CINCO greves na Nova Zelândia? Acompanhe a tabela:

 

Greves no Brasil Duração* Greves na NZ Duração*
Bancários - ANZ National Bank 2 horas
Polícia Civil-SP 28 dias KiwiRail’s Interisland Ferry 2 noites
DNIT  - SkyCity 24 horas
Médicos-PE 2 meses Auckland Airport Foodcourt horário de almoço
Funcionários da Volkswagen 8 dias Labour Department 14 x 2 horas
Funcionários da Renault 2 x 5 dias    
Médicos e Servidores da Saúde-RJ -    
Servidores do Ibama -    
Instituto Chico Mendes -    
Funcionários do Itamaraty 24 horas    
Correios 20 dias    
Infraero 8 horas (+)    
Médicos da Santa Casa-PA 9 dias (+)    
Motoristas e Cobradores-CE/ES/SC/PA 2 dias (+)    

* As durações são aproximadas. Não foi possível encontrar a duração de todas as greves.

 

Conclusão 1: Das greves brasileiras, pelo menos 10 são no setor público (não fui atrás pra saber se as companhias de ônibus dos estados CE/ES/SC/PA são públicas ou privadas). Na NZ, todas são no setor privado.

Conclusão 2: A duração das greves kiwis é muito menor e acaba não causando muito mais do que transtorno e desconforto. Transtorno e desconforto é o que causam os servidores públicos brasileiros quando trabalham!

Conclusão 3: A abrangência das grevs brasileiras é muito maior. Na NZ o alvo é o patrão e no Brasil é o povo. Das greves listadas, a que mais afetou a população kiwi foi a do ferry que liga a North Island à South Island, sendo que a paralização só ocorreu à noite e durante o dia as travessias continuavam normalmente. Enquanto isso no Brasil, mais de 130 milhões de correspondências atrasaram devido aos 20 dias de greve dos Correios.

Conclusão conclusão mesmo: Greve é um instrumento legítimo e o trabalhador deve buscar um proteção para não ser abusado pelo patrão que tem mais poder. Só que no Brasil greve não é medida extrema, é praxe. Os sindicatos não são exatamente “representantes de classe”, uma vez que a contribuição sindical é obrigatória. E as greves mais longas e danosas para a economia são justamente no setor público, onde as consequências para os grevistas são muito mais brandas. É anti-natural. Já pensou se a categoria dos antílopes resove fazer uma paralização em protesto contra os hábitos leoninos… nhact, nhoc, nhuc… antes de levantar o megafone já virou banquete. Eu adoro economia de mercado.

Tem dias…

Posted by Bruno Imbrizi . October 9th, 2008

Tem dias que eu me sinto tão bem. O trabalho tem muita influência, quando eu sei que estou no controle do que eu estou fazendo e estou produzindo quase no limite, fazendo o melhor que posso, sei que estou no caminho certo. É assim que eu melhoro, que aprendo, que cresço. Hoje minha parceria com meu colega Flash Developer me pareceu um pouco mais forte. A gente se entende, entende o código um do outro e se defende no trabalho. Não passa muito disso, não dá pra criar muita afinidade pessoal, mas no trabalho está legal. Hoje no almoço eu ousei reclamar de uma das producers que eu estava achando meio tansa e foi um sarro, primeira conversa/fofoca que eu tive aqui. Todo mundo reclamando dela, haha! Muito lerda a mulher.

Logo de manhã eu até entrei num debate com o chefão porque ele queria uma mudança de última hora que era praticamente colocar o banheiro no lugar da cozinha sem derrubar a casa. Só que até a discussão foi massa! Argumentos sólidos e sem picuínha. No final das contas ele topou ficar com uma idéia meio-termo. Ainda tive que quebrar várias paredes, mas o resultado ficou decente.

Eu me sinto inspirado por essa eficiência, esse nível de qualidade, essa atitude de “sim, eu me importo” com as coisas. Não é a toa que eu busco isso, o troço realmente me faz bem. É igual droga. Experimentou uma vez, o cérebro gostou, começa a dar vontade de ter de novo…

Olhando pro meu passado, sempre fui muito contestador, muito reclamão, sempre achava que tinha um jeito melhor de fazer as coisas. O problema era eu, óbvio. Aqui eu não me sinto mais assim. Não sei se é porque agora sou parcialmente surdo ou se porque a eficiência aqui é mais alta. Eu acho o trabalho da galera muito foda, acho meus chefes uns caras espertos pra cacete, os producers competentes e a galera da produção muito talentosa.

Isso provavelmente não representa a Nova Zelândia inteira. Mas é assim onde eu trabalho. São aquelas pessoas e aquele ambiente que consegue tirar o melhor de cada um. Tenho certeza que no Brasil existem várias empresas cheias de gente interessante, capaz e produtiva. Eu só queria que tivesse uma assim, na qual eu pudesse continuar sendo só Flash Developer, em Curitiba. Iria fazer meu adeus aqui um pouco menos complicado.

O cridê, fala pra mãe

Posted by Bruno Imbrizi . October 5th, 2008

Quase nunca assisto televisão. Tem gente usa (ou adoraria usar) essa frase, mas quando chega em casa depois do trabalho não consegue resistir aos encantos do entretenimento besta. No meu caso é verdade, quase nunca assisto mesmo. Meu entretenimento mudou de aparelho. O tempo que eu desperdiçava na frente da telinha, agora desperdiço na internet.

Depois de vir pra cá, passei a assistir menos TV ainda. Tanto eu quanto meus flatmates não damos a menor pelota pra TV. Aqui em casa ela está literalmente criando teia de aranha. Num dos apartamentos que fui visitar quando estava procurando lugar pra morar, a moradora estava com a TV ligada aos gritos e disse que eu teria que rachar a mensalidade da SKY. Ponto contra.

Ok, o post é sobre televisão. Falar sobre não assistir não ajuda muito. Então, na expressão “quase nunca”, vamos falar sobre o “quase”. Geralmente é na hora das refeições, ou seja, pra não jantar sozinho, emburreço um pouco em frente à TV. Alguns pontos que eu notei até agora:

1. TV aberta é tudo a mesma coisa. Aqui tem show do milhão, tem show de calouros, tem reality show, tem novelinha adolescente cujos dramas constrangem qualquer telespectador com QI acima de 70 e tem séries americanas, um monte delas. Só não tem nada parecido com Xuxa ou Faustão. Ponto a favor.

2. É notável o esforço para ter programas locais. Isso me lembra a Rede Paranaense de Televisão que tenta de todo jeito buscar uma identidade local, mas que até agora só mostrou uma enorme insignificância no território nacional e uma incapacidade em fazer qualquer programa que atraia o público paranaense. Aqui na NZ é diferente, bem diferente. Os kiwis já começam gostando, antes mesmo de passar o primeiro capítulo. Eles se esforçam pra gostar dos produtos locais. Se for bom, eles gostam pra caralho. Se for ruim, eles gostam menos, mas ainda gostam. Como eu disse nos primeiros parágrafos, quase nunca vejo TV, então nunca assisti um programa kiwi, ou de qualquer origem que fosse, do começo ao fim, mas é fácil de notar a predisposição pra achar boa qualquer coisa que tenha sido feita aqui.

3. Tem muito comercial com 3D. Eles adoram 3D. Ursinho, porquinho, telefoninho, bonequinho de placa de banheiro, etc. E como tem bobagem! Não é Pixar, não. Tem uns que são bem feitos, mas tem outros (especialmente o boneco laranja de placa de banheiro) que são de doer.

Aliás, comercial é meu programa favorito. Entre uma garfada e outra, mudo de canal pra ver se consigo pegar os comerciais. Sempre tem uma mulher com a cara alinhada igual à de apresentadora de jornal fazendo papel de dona de casa. Seu carpet deixa para trás sujeiras invisíveis que só o novo Tchananan resolve. Seus filhos precisam de um bom café da manhã, por isso o cereal Boróró é rico em fibras. No começo eu achava todos muito ingênuos, mas aí emburreci mais um pouco e comecei até a achar uns legais. Separei alguns exemplos pra mostrar aqui no blog.

TelstraClear . assista o comercial
Esse boneco que fica mudando de cor é o mascote deles. No centro tem um shopping com um puta adesivo dessa campanha que praticamente contorna a quadra. O mais agoniante é que não dá pra ver a cara do boneco. Parece erro na impressão. Nos comerciais de TV tem um telefone em 2D que serve de saco de pancada pro boneco super tecnológico, só que o 2D é muito mais legal que o boneco!

Charlie’s Juice . assista o comercial
Este é um dos comerciais mais imbecis de todos os tempos. Charlie’s é um suco com uma embalagem legal e normalmente é o mais caro da prateleira. Você percebe a “grife” e o público diferenciado na hora. Imagine minha surpresa ao assistir essa peça. Os caras têm um produto legal e para promovê-lo o que fazem? Chamam os três donos da empresa para se travestirem e pegarem na bunda um do outro na TV, lógico!

Export Gold . assista o comercial
Não podia faltar um comercial de cerveja na lista. O pudor do cara em não olhar pra moça pulando o muro não tem preço! Haha!

Os dois abaixo eu botei minha câmera na frente da TV porque não consegui achar na internet:

Harvey Norman . assista o comercial
Varejão que não gasta um centavo com criação, mas entope a mídia de comerciais. Essa musiquinha com as gurias gritando “Go Harvey Norman Go” é uma das coisas mais irritantes da Nova Zelândia.

Enrol to vote . assista o comercial
Eis o boneco laranjado de placa de trânsito. Pena que não passa mais aquele em que a cabeça dele é um abajur e depois faz uma metamorfose para essa cabeça de bola…

Update:
Para ver mais comerciais kiwis (a maioria 3D):
Kaleidoscope
Oktobor
Just Add New Zealanders

Baby, vamos pra Babylon

Posted by Bruno Imbrizi . October 4th, 2008

Acabei de voltar de uma festa. Ainda ouço a música, porque é na casa ao lado. Não chega a ser uma festa, é mais uma reunião para uns drinks e aparece gente de todo lugar. Quando eu digo isso, é de todo lugar MESMO. Em uma sala com pouco menos de 20 pessoas, tive a oportunidade de conversar com kiwis, ingleses, franceses, um sul-africano, uma japonesa e uma italiana. Essa possibilidade de trocar idéia com gente do mundo inteiro é um tesão. Ou, como diria meu flatmate, “it’s fantastic, I love it!” Não tem preço. Mudando o sotaque, a conversa ia mais ou menos assim:

- Oh, your English is so good!
- Valeu, valeu. Ainda tenho muito que melhorar.
- No, seriously. I know a lot of Brazilians and you don’t speak like them.
- É mesmo? Que curioso, eu não conheço muitos brasileiros por aqui.
- Really? They’re everywhere! You should go to Gina’s on Symonds St.
- Sim, mas eu quero conhecer brasileiros interessantes, gente que dê pra bater um papo cabeça como as pessoas nessa sala aqui hoje à noite.
- Oh, then. Aí já fica mais compricado…

Fica fácil de ver quão brasileiro eu sou e quão diferente do brasileiro médio eu sou. Sou fruto de uma terra de ninguém.

A japonesa falou sobre o abismo entre homens e mulheres no Japão. Nossa cultura latina, machista, parece um conto-de-fadas para a mulher japonesa que tem que ficar sempre bem atrás do homem. Morando na NZ, agora ela namora um francês e juntos conversamos sobre o comportamento das mulheres kiwis. A situação se inverte, o desequilíbrio é claramente para o lado feminino, elas são mais fortes. Debatemos, como dois latinos (sim, franceses também são latinos) o quanto isso é legal e o quanto é esquisito. Uma coisa é a mulher ser independente e ter condições iguais aos homens na sociedade, isso é fantástico. Outra coisa é ela chegar em casa à noite e em vez de se aconchegar no marido, é o marido que se aconchega nela. Ou pior, ela dá um chega pra lá nele e manda ele parar de ser tão sentimental! Me chamem do que quiserem, mas prefiro o sistema latino e acredito que, em algum ponto da escala, fala mais alto a natureza masculina de proteger e a feminina de ser protegida.

A francesa namora um inglês que está morando em Cingapura. Ou ele vem pra NZ, ou ela vai pra Cingapura. E pra França, não volta? De jeito nenhum!

A italiana está aqui há um ano e ainda não sentiu saudade de casa. Fora o clima, que ela diz que na Itália é melhor. Aí eu digo que quero muito ir para a Itália, que até comecei a estudar italiano e tal. Ela responde que a Itália está terrível, o governo está uma palhaçada, muita corrupção, impostos altíssimos, desemprego… Aí eu interrompo e falo para ela comparar com o Brasil. Ela conclui com algo que eu traduziria como:

- Ééé…

Sábado tem mais festa, com certeza vai ser internacional de novo.

Snuque

Posted by Bruno Imbrizi . October 2nd, 2008

Durante um bate-papo com o daniduc, surgiu um exemplo que me deu vontade de compartilhar aqui no blog. Imagina a cena: uma mesa de sinuca, jogo de duplas, é a sua vez e você fala:

- Cara, vou tentar adubar a 5 na boca de baixo. Não tem como pegar de peito porque a mesa tem uma descaída e esse viado deixou a 11 bem na minha reta.
- Ê meu, tá valendo a nega, não pode dar mole, dá uma com força na casquinha que ela cai!

Imaginou? Fácil, né? Situação corriqueira. Dá pra entender o que está acontecendo.

Agora, fala isso em inglês!

Quando eu falo sobre diferentes níveis de inglês, é isso que eu quero dizer. Eu trabalho, vou a reuniões, assisto filmes, tudo em inglês, mas jogar sinuca são outros quinhentos! Claro que mirar a bola branca nas bolas coloridas é a mesma coisa em qualquer lugar do mundo, mas teorizar abobrinhas sobre onde o seu cérebro ACHA que consegue colocar a bola branca é só no seu idioma de origem. Ou então depois de muita experiência sinucando em outro país.

Pra minha sorte, temos uma mesa de sinuca na empresa e, quando os prazos não estão muito apertados, dá pra jogar uma ou duas partidas na hora do almoço. Por sinal tenho jogado melhor aqui do que eu costumava jogar nos brazinhos do Brasil. E eu que achava que o chopp melhorava minha mira… Enfim, minha pequena experiência com os sinuqueiros kiwis me ensinaram algumas coisas interessantes:

  • Aqui ninguém mata a bola, aqui se afunda a bola, sink the ball.
  • Apesar de no Brasil a gente ler snooker o tempo todo, aqui jogar sinuca é play pool.
  • O cara que manda bem aqui é o tubarão, the shark.
  • Nas regras kiwis, se você não acertar sua bola, ou bater numa bola do adversário, não tem castigo nenhum. Se você derrubar a branca perde a vez, o adversário recoloca a branca na posição inicial e ele só pode bater pra frente (na direção do estouro). Se matar a bola 8 no meio do jogo, game over, quem matou perdeu.
  • Eu perguntei para dois colegas se eles tinham uma palavra para “descaída”. Um respondeu que nunca viu uma mesa com descaída e outro disse que já viu, mas não tem uma palavra pra isso.

Agora é só me esforçar mais no meu intercâmbio cultural e passar a jogar mais vezes por semana. Ói, vou te falar, jogar snuque sem castigo em mesa sem descaída é coisa de primeiro mundo, sô!

Viajando no tempo

Posted by Bruno Imbrizi . September 30th, 2008

A gente mal entrou na primavera e já começou o horário de verão na Nova Zelândia. Aqui o nome é mais descritivo: Daylight Saving Time. Vai do último domingo de Setembro até o primeiro domingo de Abril. A diferença para o horário brasileiro agora é de 16 horas.

Eu sempre tive uma opinião meio ambígua com relação ao horário de verão. Sair do trabalho ainda de dia é bem legal, mas acordar uma hora mais cedo não é nem um pouco legal. Está difícil de explicar pro meu corpo que, assim sem mais nem menos, 7:00 agora é 8:00 e tem que sair da cama. Logo no início do horário de verão aí no Brasil essa hora de levantar fica ainda pior porque o sol ainda está escondido. Reprovei em Desenvolvimento de Galináceos justamente porque não gostava de levantar antes de amanhecer.

Para minha surpresa, hoje de manhã indo para o trabalho tive que sacar o óculos-de-sol da mochila! Sim, antes de terminar Setembro o sol já está nascendo antes das 7:00 (horário do sol) ou 8:00 (horário ajustado). Estou escrevendo este post às 7:30 da noite e ainda está claro lá fora. Ou seja, os dias longos começam antes aqui (comparando com Curitiba).

Talvez algum leitor mais inteligente que eu já tivesse concluído isso só de olhar para a posição da Nova Zelândia no mapa ou comparando a latitude de Curitiba com a de Auckland, mas eu simplesmente ignorei o fato e estou aqui experimentando a novidade.

Depois de um Julho com dias horríveis, frio e chuva o tempo todo (choveu em 28 dos 31 dias de Julho), esta primavera de sol e dias longos é muito bem-vinda.

Corrupção

Posted by Bruno Imbrizi . September 24th, 2008

Meu flatmate francês comentou hoje sobre uma matéria no site do jornal Le Figaro que mostra um estudo feito pela Transparance International France sobre a corrupção no mundo.
O ranking completo pode ser conferido a partir da página 4 deste documento (em PDF).

A tabela vai dos países menos aos mais corruptos e em primeiro lugar temos um empate entre Suécia, Dinamarca e Nouvelle-Zélande! Sim, eu já estava achando difícil encontrar algo em que a NZ fosse a primeira do mundo, mas tá aí, aqui não tem vez pra malandragem ou deixa-eu-ligar-pro-meu-amigo-no-governo. Palmas pros kiwis!

O Brasil, décima maior economia do mundo, abençoado por deus e bonito por natureza, ocupa a vergonhosa 80ª posição no ranking. Estamos atrás da Costa Rica (47), África do Sul (54), Gana (67) e até do Suriname (72). Perto de nós estão países pequenos, com economia e sistema político frágeis. A gente tem tudo pra subir neste ranking, olhando aqui de fora fica fácil de perceber. É uma pena que a gente não se respeite. Essa idéia do eu-tirando-o-meu-tá-bom não é só no governo, vem desde lá de baixo. Morar aqui por um tempo já me ensinou que honestidade é um troço fácil e contagioso. Você simplesmente não consegue ter a cara-de-pau de enganar alguém e ficar numa boa. Seja por algo que você sujou/quebrou/deletou e fingiu que não foi você ou por algo que você sabe que tá errado e faz porque ninguém tá vendo/não dá nada/todo mundo faz isso. Fazemos umas dessas e normalmente consideramos pequeno ou perdoável. Espero que meu texto seja uma pequena lâmpada acesa sobre essas “pequenas desonestidades” e um dedo em riste de professora do primário: ai, ai, ai, que coisa feia!

Uma vez o Walker me contou que em Angola eles acham que o Brasil está muito mais avançado porque nós sabemos que temos problemas e os angolanos ainda não. Pois eu me senti na mesma situação, só que do lado oposto, quando conversei com um colega de empresa sul-africano. Eles têm muitos problemas de corrupção e péssimos hábitos na sociedade, mas já está na mídia e nas rodas de conversa um enorme espelho diante deles mostrando “que coisa feia”. Pra nós a coisa feia está no governo, lá em cima, lá longe. O que fazemos no nosso dia-a-dia, ah, não dá nada! Eu vou colaborar com o que eu puder pra subir nesse ranking, inclusive trazendo um pouco do know-how dos campeões, hehehe. E você?

Finalizo aqui com outras posições do ranking relevantes para meus amigos e internacionais leitores do blog:

Países Baixos – 7
Canadá – 9
Austrália – 9
Alemanha – 14
EUA – 18
Portugal – 32
Itália – 55
Argentina – 105

Campervan

Posted by Bruno Imbrizi . September 21st, 2008

Meu contrato termina quase no início do verão. É difícil dizer se volto ou se fico, mas uma coisa é certa: vou me dar um mês de férias e vou viajar pela New Zealand. E com essa idéia veio colada a idéia da Pri vir pra cá viajar junto comigo. (Aviso aos leitores anônimos: Pri é minha namorada e ela está no Brasil.) Quê? Como assim? O que você tá pensando? Que eu vou simplesmente pegar minhas coisas e… tá tá eu vou. YES! Ela vem!

Ok, vamos viajar pelo país, mas como? Pedindo carona? De avião? De trem? De ônibus de linha? Ônibus de excursão? Alugando um carro? Comprando um carro? Considerei todas as alternativas e fui atrás de informações. Depois de pentelhar umas tantas pessoas, ler fóruns na internet e debater as opções com a Pri pelo Skype, chegamos à conclusão que o melhor seria viajar de carro. De avião a gente perderia o caminho e as paisagens daqui são imperdíveis. Trem tem muito pouco, são só três linhas, não dá pra programar o roteiro inteiro só com trem igual se faz na Europa. Ônibus de excursão é legal, tem várias opções de roteiros e não é coisa para senhoras que querem experimentar o mundo sem perder o ar-condicionado, é busão de galera, cheio de balada e atividades radicais programadas. Foi uma opção difícil de descartar. Optamos pelo carro por causa da liberdade de roteiro e também pela grana. Entre alugar e comprar um carro, foi só fazer as contas. Para alugar os mais baratos, aqueles que ninguém quer, a diária sai por $35. Se quiser um decente, é na faixa dos $50. Viajar por 30 dias a esse preço significa torrar $1500. Por esse preço dá pra comprar um ótimo usado e revender depois da viagem, recuperando boa parte da grana.

O mercado de usados aqui é sensacional. Talvez não tenha algo assim em nenhum outro lugar do mundo. Uma busca por carros até $2000 no TradeMe mostra 860 resultados só em Auckland! E não é só chepa não, tá cheio de carro interessante ali. Quando que você acha um usado legal no Brasil por esse preço? Acredito que os principais motivos aqui são o fluxo de gente entrando e saíndo da NZ o tempo todo e a facilidade em trazer usado do Japão pra cá (é perto, barato e eles também dirigem com o volante na direita). É uma pena que eu não tenha guardado uma foto dos tempos de albergue, sempre tem um painel com anúncio de carro usado. Quando começa a chegar perto a data do cara ir embora, ele risca o preço e anota um mais baixo, depois risca de novo e abaixa mais um pouco, nessa hora saem umas pechinchas de dar dó.

E foi justamente no albergue que eu descobri a tal da campervan. Trata-se de uma van que teve os bancos traseiros retirados e substituídos por uma cama. É muito bicho-grilo, não é não? Pois então, foi bem uma dessas que eu comprei! Sou agora orgulhoso proprietário de uma Toyota Townace 1991 – campervan de lençol azul!

 

 

Foi o anúncio que mais me interessou no TradeMe e quanto eu vi os dados de contato do vendedor, dizia Rafael ou William. Pô, só podem ser brasileiros! Acabei comprando das mãos do William, brasileiro gente fina que está aqui já há dois anos e está se preparando para virar instrutor de paraquedismo. Não foi uma pechincha de dar dó, mas também não estava nem um pouco caro. Nas duas últimas semanas eu tive o prazer de ir quatro vezes até a auto-elétrica para consertar o sistema de trava que estava capenga e nesta semana eu iniciei a operação cortinas novas. Hoje passei a tarde entre arames e ganchinhos tentando bolar um esquema à prova de curioso. Vai ficar bacana.

Continuo indo a pé pro trabalho e pra academia. A van é só pro final do ano. Comprei no inverno porque o mercado é sazonal e os preços sobem no verão. Confesso que a vontade de dirigir começou a juntar com a preguiça de andar e eu estou usando a van pra ir ao mercado, mas não passa muito disso. Nos últimos finais de semana, o Thomas (meu flatmate) me intimou para viajar um pouco com a van e nós fomos primeiro até Long Bay e depois até Omaha, duas praias lindas. Na volta de Omaha escolhemos o caminho que passa por Helensville, mais pro interior. A paisagem dessa estradinha é algo de cair o queixo. Esta semana o Thomas ficou com inveja e comprou uma van pra ele também (a minha é mais legal), então acho que nossas viagens de domingo acabaram.

Não vejo a hora da Pri chegar e sair viajando pelo mundão levando a casa nas costas!

Links
Passagens aéreas – Air New Zealand [ www.airnewzealand.co.nz ]
Passagens de trem – Tranz Scenic [ www.tranzscenic.co.nz ]
Ônibus de excursão – Kiwi Experience [ www.kiwiexperience.com ]
Aluguel de carro – Apex Car Rentals [ www.nzrentalcar.co.nz ]
Carros usados – TradeMe [ www.trademe.co.nz/Trade-me-motors ]

Trânsito

Posted by Bruno Imbrizi . September 15th, 2008

Aqui todo mundo tem carro. As duas frases mais repetidas são “Em Auckland sem carro você não faz nada” e “O transporte público é uma porcaria”. Exagero, mas tem fundamento.

Auckland tem uma população de 1.417.000 (estim. Jun 2008) espalhada por uma área de 1.086 km². Para comparar, Curitiba tem 1.797.408 (IBGE 2007) vivendo em uma área de 430.9 km² (sem a Região Metropolitana). Ou seja, Auckland tem uma área enorme e sem carro fica difícil de cobrir essa distância toda. Sem contar que dirigindo um pouco mais pra cima ou um pouco mais pros lados pode-se encontrar paisagens incríveis e uma porrada de praias. Os números acima também mostram que a densidade populacional aqui é mais baixa e, mesmo que todo mundo tenha carro, os congestionamentos são raros. O que eles chamam de congestionamento aqui é de dar risada. Quem já se estressou na Treze de Maio aí ia agradecer aos céus pelos congestionamentos daqui. Imagine o pessoal de São Paulo…

Sobre o transporte público, não tenho muito o que falar porque eu não uso. Trem eu só usei uma vez, acho que é uma boa opção para ir para as áreas mais afastadas, mas eu não tenho muito o que fazer por lá. Ônibus também só usei uma vez e o preço foi um absurdo. Parece que o preço muda dependendo da linha ou de onde você pega o ônibus. A principal companhia de ônibus tem um site onde você pode colocar os endereços de partida e de chegada e ele te retorna os possíveis itinerários de transporte público. Até agora para os lugares onde eu precisava ir, compensava mais ir a pé, porque não tinha uma linha que fizesse o meu trajeto em menos tempo. Vai ver é por isso que o pessoal reclama, sei lá.

Sobre ir a pé eu sei bastante! Já andei por tudo quanto é lado aqui. Tem muitos parques bonitos espalhados pela cidade e é sempre legal chegar perto do mar. Carrego na minha mochila um óculos de sol, um guarda-chuva e um cachecol. Nunca sei qual vou precisar. Geralmente preciso dos três em momentos alternados e não raro preciso dos três juntos. A combinação óculos de sol e guarda-chuva não faz sentido pra você? Vem caminhar em Auckland, então!

O ser pedestre aqui funciona um pouco diferente do Brasil. Também tem aquela história de “você pisa na faixa e os carros param” que já virou sinônimo de civilização. Só que aqui as faixas ficam longe dos sinaleiros, sempre com uma placa laranja de cada lado. A idéia é que o motorista preste atenção e veja se tem algum pedestre querendo passar por ali, se não tiver ninguém ele pode tocar o barco. Nos sinaleiros o esquema é diferente, não tem faixa listrada, são só duas linhas contínuas e sempre tem um baita botão pra você apertar e ficar esperando. O comportamento da galera nesses sinais varia muito. Tem gente (a maioria) que espera mesmo que não tenha nenhum carro vindo, tem gente nem aperta o botão e já vai atravessando e tem gente que atravessa fora da faixa no meio da rua mesmo. Uma vez eu atravessei fora da faixa com um colega de trabalho e levamos um pito de um caminhoneiro. Um pito muito bem educado por sinal: “Hey gentlemen, you know that there is a crosswalk down the road!” Abaixamos a cabeça e seguimos, né, fazer o quê? De maneira geral a coisa é bem organizada, mas tem um quê de bagunça também (não consigo evitar de comparar com a Alemanha, em matéria de organização é covardia).

 

 

Tá, mas o que eu queria contar mesmo com este post é que eu comprei uma van! Agora, posso colocar no meu currículo que tenho experiência como pedestre e motorista! Aqui funciona como na Inglaterra, o volante é do lado errado e todo mundo dirige na contra-mão. Somado a isso, ainda tem o fato da minha van ser um trem grande e de eu não ter muita experiência com câmbio automático (tá, é ridículo de fácil, mas nos primeiros 10 minutos dá uma confundida, vai). Todas essas diferenças juntas me deixaram um pouco nervoso nas primeiras voltas que eu dei, me senti de novo na auto-escola, mas agora, olhando em retrospectiva, até que a curva de aprendizado foi rápida.

Se algum leitor deste blog estiver pensando em vir para a Nova Zelândia, pode trazer a carteira de motorista na bagagem, vale por 1 ano aqui e não precisa de habilitação especial para dirigir vans. E pra pegar a manha é dois palito, mano!

Fica prometido aqui um post no futuro contando mais sobre a minha nova van, pra onde eu já fui com ela e pra onde pretendo ir, combinado? Até lá.

Nessa casa tem goteira

Posted by Bruno Imbrizi . September 10th, 2008

Quarta-feira, cinco da tarde. O sol já está baixo e entra pela janela da agência deixando o texto no canto do monitor difícil de ler. Olho pro lado e um dos meus colegas pergunta:

- Do you guys want a beer?

Pra mim não, obrigado. Nisso chega uma produtora perguntando sobre o trabalho do dia com uma taça de vinho tinto na mão. Enquanto conversamos, deu tempo de meu colega descer e voltar com uma caixa de papelão cheia de long necks que ele buscou na geladeira. Pegou uma pra ele e deixou as outras ali, pro pessoal se servir. E o pessoal se serve mesmo. Cada um se levanta, pega uma bera, estoura a tampa usando o dedão e um marca-texto (já aprendi a técnica) e volta pra sua mesa. Não é comemoração por job finalizado, não é pro pessoal que vai ter que ficar até tarde e não é aniversário do chefe. É assim todo dia: depois das 5h, álcool liberado.

Isso não quer dizer que a coisa vira festa. Que todo mundo vira as costas pro computador e começa a contar piada de Argen… digo, de Australiano. O clima dá uma descontraída, mas todo mundo continua trabalhando. Às vezes a cervejinha marca o final do expediente, mas na maioria das vezes é só um relax, depois volta o trampo até as 6h, 7h, 8h… até a hora que o cara tiver que ficar. Funcionário bebe, chefe bebe, gerente de conta bebe, não tem crise, ninguém te olha torto se você estiver com uma Corona na frente do seu teclado.

Na minha mega pesquisa antropológica, descobri que isso acontece na maioria das empresas kiwis, desde as pequenas até gigantes como a Vodafone. O normal é ter esse tipo de coisa na sexta, mas em alguns ambientes mais criativos rola a semana inteira. Algumas empresas fazem uma caixinha para as beras e outras são open bar. Na minha é open bar e a geladeira está sempre cheia.

Tá e qual o sentido de deixar o cara beber no serviço? Deixar o cara feliz com a empresa, oras! Mão-de-obra qualificada aqui é artigo raro e todo mundo quer segurar o seu quadro de empregados. E além disso, tem um outro argumento que surgiu numa mesa de jantar com franceses e kiwis (e o brazuca aqui), todos com várias viagens pelo mundão no currículo. A conclusão foi que kiwi não bebe pra socializar, bebe pra ficar cozido. Quanto antes melhor. E eles se passam mesmo, homens e mulheres bebem até ficarem “wasted”, como eles dizem por aqui, ou “smashed”.

Pessoalmente, acho bem legal a idéia de trabalhar num ambiente assim e sou um desses funcionários felizes que não querem mudar de emprego. Por outro lado, quase nunca tomo a tal cerveja depois das 5h. Falta motivo, eu acho. Se o dia foi muito estressante, se fiquei sob pressão desde às 8h da manhã, então uma cervejinha cai bem. Se é sexta-feira e o clima na empresa está legal, desce uma pra mim também. Do contrário, não me agrada beber por beber, acho que só aumenta a preguiça de continuar no trabalho. Pra mim não, obrigado.

E aí no Brasil, na sua empresa?
O que você ia achar de abrir uma bera no finalzinho do expediente?